Corda-bamba

minha mente flutua
no limite entre
o real e o delírio
equilibra
em ter todos os
fetiches
do mundo
e continuar
monogâmico
cambaleia
em ser arte
e ser concreto
titubeia
em ficar sóbrio
enquanto embriaga
tenho todos os desejos
inalcançáveis
reproduzidos em frames
na pupila dilatada
mas mantenho as mãos firmes
na cadeira
e o rosto
de profissional
sério
temo ser tomado
pela loucura
mas mantenho
contato virtual
oi

Mário

pelas ruas
na escola
com caderno
do Batman
desenhando o
professor
ou pulando o
muro
pra jogar
RPG
você pode esbarrá-lo
no mercado
comprando
Cup-Noodles
esse cara
pode ser seu amigo

pare de reclamar
do quanto você
é estranho
pare de reclamar
da sua solidão

na escola
esse menino bizarro
é bizarro como você
também gosta de
Mário
não é popular
tem cabelo solto
e mal cuidado

não importa,
na multidão
sempre tem alguém
para se identificar

comerciais

meu celular roubado foi encontrado
vou à delegacia, onde
sentado no canto
ao fundo
como se escondendo
dos meus olhos
mais acesos
que o fogo
avisto ele
sem nem cumprimentar
reencontro o
ladrão

talvez tenha mais de 18
na idade em que tudo é começo
e tudo é fim
tênis
calça jeans
camiseta branca
sobre ela
camisa
de balada
vermelha e clara
cabelo alinhado pro lado
harmônico
o rosto
envergonhado

logo a delegada
me entregou o celular
a tela com rasuras
acabamento destruído
de muito ter caído
tropeçado
esquecido
lembrado
como todo homem
antes da primeira
dívida
de fundo uma foto
ele beijava a namorada
romântico-meloso
talvez sincero
talvez quase mentiroso
como todo homem
em idade reprodutiva

nossos rostos se cruzaram
não tive medo
nem pena
nem ódio
seu celular era meu
suas roupas eram minhas
sua vergonha
desajeitada
minha
o funk
o desejo
o afeto
o sonho feliz
dos comerciais da rede Globo
meus
até que percebi
por fim:
ele era eu

pessoas como flores

“que cantoria prossegue nas
ruas –
as pessoas parecem flores
finalmente

a polícia guardou suas
insignas
o exército rasgou seus uniformes e
destroçou suas armas. não há necessidade de
cadeias ou jornais ou hospícios ou
trancas nas portas

uma mulher vem correndo até minha porta
ME COMA! ME AME!
ela grita.

ela é bela como um charuto
depois de jantar um bom filé, eu
a possuo.

mas depois de sua partida
eu me sinto esquisito
tranco a porta
vou à escrivaninha e pego a pistola
da gaveta. ela tem seu próprio senso de
amor.
AMOR! AMOR! AMOR! a multidão canta nas
ruas.

eu atiro pela janela
o vidro corta meu rosto e
braços. acerto um garoto de 12 anos
um velho de barba
e uma adorável moça algo parecida a uma
violeta

a multidão para de cantar para
me olhar.
estou parado na janela quebrada
o sangue em meu
rosto.

“isso”, eu grito para eles, “é em defesa da
pobreza de si mesmo e em defesa da liberdade
de não amar!”

“deixe-o em paz”, alguém diz,
“ele está louco, viveu uma vida ruim por
tempo demais”

entro na cozinha
sento-me e encho um
copo de uisque

resolvo que a única definição da
Verdade (que muda)
é ela ser a única coisa ou ato ou
crença que a multidão
rejeita.

estão socando minha
porta. é a mesma mulher de novo.
ela é tão bela como encontrar um
sapo verde e gordo no
jardim.

eu tenho 2 balas restantes e
uso
ambas.

nada no ar a não ser
nuvens. nada no ar a não ser
chuva. a vida de cada homem é curta demais para
encontrar sentido e
todos os livros quase um
desperdício.

sento e os ouço
a cantar.
sento e os
ouço.”

(Charles Bukowski, tradução de Claudio Willer)

Tapete

Um apartamento sem lixeira
um homem amassado e pálido
varre-se aqui
limpa-se ali
poeira
embalagens
barata morta
põe debaixo
do tapete
antes da visita
depois da visita
deixa

Dias corridos
cansado
folhas
camisinha
juntam ao monte
do tapete
já sem espaço
varre-se abaixo do sofá
papel higiênico
em armário pequeno
do banheiro
nota fiscal
em cozinha
acima dos móveis altos
prateleiras
e atrás da tv
já não cabe

Quarto de hóspede
vira quarto de lixo
um após o outro
sobre a cama
no chão liso
agora áspero
organiza-se espaço
para papéis inúteis
livros velhos
encontra caixa
para cervejas vazias
canto dos orgânicos

Esconde-se plástico
como fantasma na noite
a janela porém
pela manhã assalta
em claridão
ele joga perfume
aromatizante na sala
compra inseticidas
álcool-gel
veja
água sanitária

Até que de surpresa
uma prima lhe toca a campainha
anda pelo tapete
senta no sofá
liga a tv
abre a janela
vê um plástico-bolha
preso
à fresta da porta
do quarto de hóspedes
aperta uma bolha
outra bolha
movimento anti-estresse
pergunta
banalidades
do clima, do ar
e pede a chave
do quarto

Ele sai da sala
bate a porta
sai correndo
sem chave
sem almoço
sem endereço
foge pelas ruas
desesperado

Plateia

Falas muito
de tanto falar
absorvo entonações
tua saliva gasta
em frases repetidas
tua voz nascida no ar
parece vinda do meu ser
mais profundo

Sou plateia cativa
aprecio a vida dos gestos
a face se movendo
contemplo tua boca pequena
teu rosto frágil
a expressão dos olhos
em indignação e indiferença

Perdoo teus palavrões
incito tuas histórias
distraio e retraio
em velocidade
falas demais
se falasses de menos
eu entraria no abismo
inconsolável
do teu silêncio

Rascunho

Jogarei fora
as caixas antigas
papéis do primeiro ano
contas nunca pagas
e ainda sem culpa
cartas
roupa velha
embalagens
de um sonho
mal resolvido

Jogarei fora
o que escrevi
sem paixão
e o que de paixão
empoeirou
retratos de família
sem título
o choro em poemas
mal logrados

Vão pro lixo
canetas sem tinta
rádio mudo
fio enrolado
em anos a fio
de folhas inúteis
revista sob revista

Tudo ocupou em mim
um desperdício
fez do tempo
cachoeira
ao precipício
queimarei
a céu aberto
tudo o que não seja
exatamente
eu